Um dos fatores que me leva a retomar a ideia desta página é a enorme quantidade de notícias sobre a pandemia de COVID-19 que falam de dados e mais dados e apresentam gráficos e mais gráficos. Não pretendo manter um acompanhamento atualizado do assunto, pois seria inviável. Eu havia escrito uma primeira versão deste texto há uns dez dias e ela já está ultrapassada pois se referia a dados específicos. Das próximas vezes, tratarei de focalizar ideias e conceitos matemáticos, com a intenção de tornar mais claras algumas informações.
Descrever quantitativamente o processo de disseminação do vírus numa população é um processo de modelização matemática, isto é, constrói-se um modelo matemático para representar um problema. Pesquisadores de todo o mundo e também de institutos de pesquisa brasileiros estão elaborando modelos que levem em conta os múltiplos fatores envolvidos na disseminação da COVID-19. Esses modelos são importantes porque permitem prever situações futuras e avaliar o impacto de possíveis decisões.
No entanto, por mais simples que seja o modelo, são necessários dados, dados de qualidade, para construí-lo e mais dados ainda para validá-lo. A doença foi descoberta no final do ano passado, então ainda conhecemos muito pouco do seu comportamento. Estudos vêm sendo feitos intensamente, mas tudo é muito recente.
Aqui no Brasil, além disso, há o problema da subnotificação. O Ministério da Saúde criou um portal [1] em que publica diariamente dados oficiais coletados em todo o país. Há no entanto um grande problema: o Brasil está fazendo poucos testes. Sem a realização de testes, como saber o que está acontecendo?
Já no final de março o Jornal Nacional [2] alertava para a existência de milhares de testes ainda não analisados e da quantidade limitada de kits disponíveis e de insumos para a realização de testes. Como decorrência disso, o Ministério recomendava que se testem apenas os pacientes internados e os profissionais da saúde. Esta política deixa evidente a existência de subnotificações, isto é, os dados do Ministério são apenas um limite inferior para os números reais.
Em 9 de abril, segundo o portal UOL [3] o Brasil havia feito 29,7 testes por 100 mil habitantes, em contraste com a Itália com mais de 1000 testes por 100 mil habitantes ou os EUA, com 596 testes por 100 mil habitantes.
Na mesma data era possível observar evidências de subnotificação no Brasil comparando o número de hospitalizações semanais por síndrome respiratória aguda grave nos primeiros meses de 2020 com o mesmo período de 2019 [4]:
Fonte: Rede Brasil Atual [4]
As dificuldades de testagem fazem que muitas pessoas faleçam sem que a Covid-19 seja registrada como causa de óbito. Segundo o Portal de Transparência do Registro Civil [5], houve um aumento no número de mortes atribuídas a insuficiência respiratória e a doenças pulmonares.
Um trabalho promissor realizado inicialmente no RS coletou dados que permitem fazer uma 1ª estimativa do nível de subnotificação. Baseados em testes realizados aleatoriamente em 9 cidades gaúchas, um estudo da Universidade Federal de Pelotas [6] indica que para cada caso notificado há outros 4 não notificados. Esse estudo está sendo ampliado para todo o país. Se esse resultado puder ser extrapolado, isso quer dizer que se em 26/04/2020, quando escrevo este texto, há 61.888 casos confirmados [1], há também 247.552 casos não notificados. Isso dá, no total, 309.444 pessoas infectadas em todo o país.
O modelo mais simples para descrever o crescimento de uma população é o modelo exponencial. O canal Engenheirando elaborou um vídeo simples e engenhoso [7] para dar uma ideia de como um comportamento exponencial pode ser contraintuitivo e mostrar a importância de se adotar logo medidas de contenção, muito antes da disseminação se tornar inquestionável.
Nas próximas postagens pretendo falar mais da matemática, mas senti que neste primeiro momento era importante falar da necessidade de dados.
A próxima postagem deverá ser sobre o número reprodutivo básico R0, que é um indicador usado para caracterizar a velocidade de contágio de uma doença.
Toda sugestão e observação são bem-vindas.
Boa semana!
Prof. Francisco Echalar.
Referências:
[1] – Painel Coronavírus. Ministério da Saúde, 2020.
[2] – Números da COVID-19 podem ser maiores porque quantidade de testes é insuficiente. Jornal Nacional. 31 de março de 2020.
[3] – Baixa testagem e falta de dados comprometem combate ao Corona no Brasil. Portal UOL. 9 de abril de 2020.
[4] – Subnotificação esconde dimensão da Covid-19 no Brasil. Rede Brasil Atual. 9 de abril de 2020.
[5] – Mortes por pneumonia e insuficiência respiratória aumentam no DF. Correio Braziliense. 20 de abril de 2020..
[6] – IRION, Adriana. Pesquisa indica que RS tem 4,9 mil infectados que não entraram no sistema de saúde. Portal de notícias Gaúchazh. 15 de abril de 2004.
[7] – Coronavírus e vitórias-régias: entendendo a curva exponencial do coronavírus. YouTube. Canal Engenheirando. Acessado em 19 de abril de 2020.
